A mentira sobre a mentira.
Um dia desses, eu soube da história de uma mulher
que passou a tarde em um motel com o entregador de pizza. As nove da noite foi
ao “chópim”, comprou algumas calcinhas (quaisquer) e foi pra casa. Quando
chegou, como é fácil de presumir, o marido lhe perguntou onde ela estava? A
esposa disse a verdade e ele chateado lhe pediu que não inventasse essas
mentiras quando era óbvio - pelos pacotes - que ela estava no “chópim” fazendo
compras compulsivamente. A partir do fato é esperado que muitos acreditem que a
rapariga em questão é uma pilantra e, ainda, vejam a mentira como uma
ferramenta vil da safada. Contudo, com tal exposição, não pretendo suscitar o
presumível e sim quero algo mais, quero provar a mentira sobre a mentira ou
melhor: a verdade sobre a mentira, pois como dizia Nelson Rodrigues, “quem
pensa com a unanimidade não precisa pensar”.
No Dicionário Aurélio está registrado
o significado da palavra “mentira” como uma impostura, como fraude ou
falsidade. E o que se tem através da cultura popular é que a mentira não é
coisa boa e que está sempre ligada ao mal. Percebam como entre escritores e
dramaturgos a mentira sempre é um mecanismo utilizado por personagens
malévolos, de caráter duvidoso - o que, parece-me, só aumenta os valores
negativos no recheio semântico dessa palavra.
Entretanto isso não é tudo. Observe a
passagem antes descrita, coloque-se no lugar da esposa e responda: No que a
mentira poderia lhe prejudicar? Se ela estava com o entregador de pizza - sem
medo de errar - era porque as coisas em casa já não iam bem. Logo, quando ela
gera a confusão para não ser descoberta, quando ela “mente” usando como
artifício as calcinhas, está na verdade dando a oportunidade para as coisas se
acertarem. Ela já encontrou uma saída, mas não saiu. Nesse caso, a mentira é,
no meu entender, a demonstração mais pura da Esperança. Seguindo a passagem, a
esperança de um dia ter a harmonia do lar recuperada.
Espere, não é só. Agora leitor,
preciso que imagine um daqueles dias difíceis, que chegamos em casa destruídos,
só querendo ficar um pouco sozinhos e o telefone toca. Quando não atendemos ao
telefone estamos mentindo - mentindo que
não estamos em casa. Nem sabemos quem é, o que não interessa. O importante é
ficar um pouco sozinho. Responda então: Há algum mal nisso ou aqui a mentira é
a garantia da individualidade, da recuperação do “eu” perdido? E quando alguém
vem e te mostra aquela nova roupa horrível que comprou, qualquer um poderia
berrar: Nossa, que horror! Contudo sendo ponderado, entendendo que o padrão
estético de um, necessariamente, não precisa ser o mesmo de outro e contando
uma mentirinha - Que lindo! - se garante, mais uma vez, o direito a
individualidade.
Paremos nós então de reproduzir a idéia de que a
mentira não é uma coisa boa. Façamos como Mário Quintana que no livro “Lili
Inventa o Mundo” já nos oferecia férias da Culpa Original quando dizia que “a
mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer”. Até porque, já sendo
exaustivo nas citações, segundo Brecht, é muito cansativo ser mau.
Yuri Gross
Críticas e
sugestões