sábado, 15 de setembro de 2012


Eu quis morrer.

Quando eu descobri que minha professora do ensino fundamental era casada, eu quis morrer, mas não morri.

Quando a minha primeira namorada me contou que beijou outro cara nas férias em Santa Catarina, eu também quis morrer e não morri.

A primeira vez que olhei para os lados e me vi sozinho, eu quis morrer. Apesar disso, não morri.

Minha vida foi passando, passando, passando e nesse tango eu percebi que nem tudo que se quer se consegue. Lógico que essa constatação fez com que eu quisesse morrer, assim como, obedecendo a essa espécie de silogismo, eu não morri.

Hoje, cada vez que eu quero morrer nasce um texto. Eles são como cadáveres espalhados ao meu redor, me lembrando constantemente quanto de dor e amor cabe em um homem. São cadáveres de olhos abertos, que me encaram e quase todo dia um me chama prá conversar. Algumas vezes eu não estou para conversas, outras falamos horas. Porém, em todo encontro, lembro da intensidade com que vivo e de como é bom sobreviver prá fazer da vida uma história.

 

Yuri Gross

Acadêmico de Letras/ Literatura Brasileira

 

domingo, 2 de setembro de 2012



              A mentira sobre a mentira.
            Um dia desses, eu soube da história de uma mulher que passou a tarde em um motel com o entregador de pizza. As nove da noite foi ao “chópim”, comprou algumas calcinhas (quaisquer) e foi pra casa. Quando chegou, como é fácil de presumir, o marido lhe perguntou onde ela estava? A esposa disse a verdade e ele chateado lhe pediu que não inventasse essas mentiras quando era óbvio - pelos pacotes - que ela estava no “chópim” fazendo compras compulsivamente. A partir do fato é esperado que muitos acreditem que a rapariga em questão é uma pilantra e, ainda, vejam a mentira como uma ferramenta vil da safada. Contudo, com tal exposição, não pretendo suscitar o presumível e sim quero algo mais, quero provar a mentira sobre a mentira ou melhor: a verdade sobre a mentira, pois como dizia Nelson Rodrigues, “quem pensa com a unanimidade não precisa pensar”.

No Dicionário Aurélio está registrado o significado da palavra “mentira” como uma impostura, como fraude ou falsidade. E o que se tem através da cultura popular é que a mentira não é coisa boa e que está sempre ligada ao mal. Percebam como entre escritores e dramaturgos a mentira sempre é um mecanismo utilizado por personagens malévolos, de caráter duvidoso - o que, parece-me, só aumenta os valores negativos no recheio semântico dessa palavra.

Entretanto isso não é tudo. Observe a passagem antes descrita, coloque-se no lugar da esposa e responda: No que a mentira poderia lhe prejudicar? Se ela estava com o entregador de pizza - sem medo de errar - era porque as coisas em casa já não iam bem. Logo, quando ela gera a confusão para não ser descoberta, quando ela “mente” usando como artifício as calcinhas, está na verdade dando a oportunidade para as coisas se acertarem. Ela já encontrou uma saída, mas não saiu. Nesse caso, a mentira é, no meu entender, a demonstração mais pura da Esperança. Seguindo a passagem, a esperança de um dia ter a harmonia do lar recuperada. 

Espere, não é só. Agora leitor, preciso que imagine um daqueles dias difíceis, que chegamos em casa destruídos, só querendo ficar um pouco sozinhos e o telefone toca. Quando não atendemos ao telefone estamos mentindo -  mentindo que não estamos em casa. Nem sabemos quem é, o que não interessa. O importante é ficar um pouco sozinho. Responda então: Há algum mal nisso ou aqui a mentira é a garantia da individualidade, da recuperação do “eu” perdido? E quando alguém vem e te mostra aquela nova roupa horrível que comprou, qualquer um poderia berrar: Nossa, que horror! Contudo sendo ponderado, entendendo que o padrão estético de um, necessariamente, não precisa ser o mesmo de outro e contando uma mentirinha - Que lindo! - se garante, mais uma vez, o direito a individualidade.

               Paremos nós então de reproduzir a idéia de que a mentira não é uma coisa boa. Façamos como Mário Quintana que no livro “Lili Inventa o Mundo” já nos oferecia férias da Culpa Original quando dizia que “a mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer”. Até porque, já sendo exaustivo nas citações, segundo Brecht, é muito cansativo ser mau.
 

Yuri Gross

Críticas e sugestões

 

 

sexta-feira, 31 de agosto de 2012


                Nasci em Tapes no ano de 1972 e por influência do romance Doutor Jivago, do escritor Boris Pasternak, chamo-me Yuri; Yuri Gross. Essa espécie de carma se estendeu por toda prole de meu pai: Meu irmão do meio chamou-se Dimitri, d´Os Irmãos Karamazovi de Dostoievski e minha irmã caçula chama-se Natália, “aportuguesamento” de Natacha, do Tchekhov, o mestre dos contos, especificamente d’As Três Irmãs. Meu velho pai, apaixonado por autores russos, morreu em 87 de câncer e minha mãe e meu irmão no final de 91 em um assalto. Fora a saudade, confesso que sou bem grato a tudo que meus pais me ofereceram e mesmo sabendo que estou traindo a Irmandade dos Santos do Pau Oco, reconheço que sou agradecido inclusive pelas chineladas e puxões de orelha.
              Lembro de ter alguns livros quando era pequeno e que, oxalá, esses impressos realmente eram literatura, contudo acredito que minha apreciação por está arte começou mais tarde, já na adolescência, quando eu escrevia algumas frases desconectas, que lembravam o corpo de um poema e que rimavam no final - tudo com palavras fortes e passionais - para assim seduzir algumas meninas.
            Talvez porque alguns dos pseudopoemas deram resultado ou talvez pela mesma vontade que move o operário - aquele que beija os filhos antes de acordarem e só os vê novamente depois que já dormiram - eu continue a escrever. Tudo Bem! Também pode ser porque tenho 1,93m e peso 120kg, o que certamente desencoraja qualquer um que pense em me dizer para mudar de ramo. No entanto, tenho certeza que escrever é dar vida a uma folha de papel e que dada está vida à folha, nos resta pular de cima de uma linha para outra, com a caneta na mão, se equilibrando.
 

Yuri Gross
Professor
Acadêmico do curso de Letras/ Literatura Brasileira
Primeiro lugar no Concurso Klabin/ Riocell – Categoria Poesia/2000
Selecionado no Concurso Histórias do Trabalho/ PMPA – Categoria Crônica/2001
Cronista do Jornal Regional Armazém de Notícias

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

 

 
 
 
Dia do Palhaço

            Em dias difíceis como os de hoje, muitas pessoas ou exercem mais de uma função profissional ou até executam tarefas sem as mínimas condições de trabalho, oferecendo muitos riscos para sua saúde e até para sua integridade física. Assim tentam garantir condições um pouco mais dignas de vida. Eu também tô nessa batalha.

Além do curso superior que freqüento, trabalho com Literatura Brasileira em três escolas, escrevo para este jornal – o que é fácil de presumir – e mantenho uma empresa de apoio à outras firmas que necessitem comunicar-se com seus mercados - tudo graças a paciência de algumas pessoas que muito colaboram para minhas conquistas. No entanto estimado leitor, não pretendo aqui fazer uma autobiografia, então não se assuste. Não sofro de uma crise de megalomania compulsiva, capaz de me fazer acreditar que isso só acontece comigo, como prova minha introdução nesse relato. Muito menos irei começar mais um calvário de lamúrias trágicas, até porque senão cômicas; lindas e daí tocando a outros gêneros literários. Devo sim, aqui, fotografar um momento e sendo pertinente é o que faço a seguir.

Como qualquer um desse que pretendem chegar a algum lugar através da labuta, um dia desses, eu estava fazendo a minha parte: desenvolvia uma pesquisa de datas comemorativas para um anunciante de um jornal local. Esse tipo de pesquisa, na área de divulgação é comum e não tem nada de especial. O que aconteceu de particular se refere ao dia dez de dezembro, o Dia da Declaração  Mundial dos Direitos Humanos. Tal declaração foi assinada em Paris, no ano de 1948 e a partir dela surgiram alguns prerrogativas que hoje garantem ao cidadão comum o direito a moradia, a alimentação, a saúde e outros tantos. Até aí nada de anormal, né? Relatei que no dia tal é comemorado tal coisa. Que a tal coisa serviu de base para um monte de lei que não são cumpridas. Viu? Tudo normal! Mas espere. Tem mais. No dia dez de dezembro, no Brasil, também é comemorado o Dia do Palhaço. Isso mesmo, o Dia do Palhaço.

No início eu senti um desconforto. Sei lá o que era. Talvez pela situação de desigualdade social vigente no país, com tanta gente vivendo mal e trabalhando muito pra ganhar ninharia. Em seguida me deu um pouco de falta de ar. Até porque comemorar o Dia do Palhaço no mesmo dia da Declaração dos Direitos Humanos, com tanta disparidade, com tanto absurdo, com tanto sofrimento por aí, tá na cara que é piada. Mas depois foi passando. Com o tempo tudo se ajeita. Afinal a vida é assim mesmo. Deus sabe o que faz. Fazer o que também? A gente trabalha feito louco, chega em casa cansado, como é que vai se envolver em disputa política por uma vida melhor? Não, melhor não. Depois a gente se enrola, as pessoas pegam a falar mal... Melhor assim, em casa descansando; vendo a novela. E quanto ao tal desconforto e a falta de ar é só durante dia, porque quando chego em casa, a noitinha, a primeira coisa que faço é tirar o nariz vermelho. 

 

sexta-feira, 24 de agosto de 2012



Mais um dia.
Amanhã, dizem, vai chover.
Outro dia. Ele em Macondo, né Gabriel?

quarta-feira, 22 de agosto de 2012