domingo, 2 de setembro de 2012



              A mentira sobre a mentira.
            Um dia desses, eu soube da história de uma mulher que passou a tarde em um motel com o entregador de pizza. As nove da noite foi ao “chópim”, comprou algumas calcinhas (quaisquer) e foi pra casa. Quando chegou, como é fácil de presumir, o marido lhe perguntou onde ela estava? A esposa disse a verdade e ele chateado lhe pediu que não inventasse essas mentiras quando era óbvio - pelos pacotes - que ela estava no “chópim” fazendo compras compulsivamente. A partir do fato é esperado que muitos acreditem que a rapariga em questão é uma pilantra e, ainda, vejam a mentira como uma ferramenta vil da safada. Contudo, com tal exposição, não pretendo suscitar o presumível e sim quero algo mais, quero provar a mentira sobre a mentira ou melhor: a verdade sobre a mentira, pois como dizia Nelson Rodrigues, “quem pensa com a unanimidade não precisa pensar”.

No Dicionário Aurélio está registrado o significado da palavra “mentira” como uma impostura, como fraude ou falsidade. E o que se tem através da cultura popular é que a mentira não é coisa boa e que está sempre ligada ao mal. Percebam como entre escritores e dramaturgos a mentira sempre é um mecanismo utilizado por personagens malévolos, de caráter duvidoso - o que, parece-me, só aumenta os valores negativos no recheio semântico dessa palavra.

Entretanto isso não é tudo. Observe a passagem antes descrita, coloque-se no lugar da esposa e responda: No que a mentira poderia lhe prejudicar? Se ela estava com o entregador de pizza - sem medo de errar - era porque as coisas em casa já não iam bem. Logo, quando ela gera a confusão para não ser descoberta, quando ela “mente” usando como artifício as calcinhas, está na verdade dando a oportunidade para as coisas se acertarem. Ela já encontrou uma saída, mas não saiu. Nesse caso, a mentira é, no meu entender, a demonstração mais pura da Esperança. Seguindo a passagem, a esperança de um dia ter a harmonia do lar recuperada. 

Espere, não é só. Agora leitor, preciso que imagine um daqueles dias difíceis, que chegamos em casa destruídos, só querendo ficar um pouco sozinhos e o telefone toca. Quando não atendemos ao telefone estamos mentindo -  mentindo que não estamos em casa. Nem sabemos quem é, o que não interessa. O importante é ficar um pouco sozinho. Responda então: Há algum mal nisso ou aqui a mentira é a garantia da individualidade, da recuperação do “eu” perdido? E quando alguém vem e te mostra aquela nova roupa horrível que comprou, qualquer um poderia berrar: Nossa, que horror! Contudo sendo ponderado, entendendo que o padrão estético de um, necessariamente, não precisa ser o mesmo de outro e contando uma mentirinha - Que lindo! - se garante, mais uma vez, o direito a individualidade.

               Paremos nós então de reproduzir a idéia de que a mentira não é uma coisa boa. Façamos como Mário Quintana que no livro “Lili Inventa o Mundo” já nos oferecia férias da Culpa Original quando dizia que “a mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer”. Até porque, já sendo exaustivo nas citações, segundo Brecht, é muito cansativo ser mau.
 

Yuri Gross

Críticas e sugestões

 

 

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